Essa historinha que eu vou lembrar neste texto de hoje aconteceu no Campeonato Brasileiro de Juniores de 1979, em Rio Branco (cidade desde sempre e para a eternidade plantada no meu coração), num jogo entre as seleções do Acre e do Pará, marcado para o vetusto Stadium José de Melo.
A partida, para a qual estava escalado um árbitro de Goiás, de nome José Pereira Sobrinho, deveria ser realizada na tarde de um sábado. Duas ocorrências, porém, interferiram no programado. Primeira: o voo que trazia o árbitro sofreu um considerável atraso. Segunda: caiu uma chuva torrencial.
O problema do voo, é claro, não tinha como ser resolvido. O árbitro, naturalmente, não poderia voar de Goiânia a Rio Branco pendurado nas asas de nenhum urubu. Já quanto à chuva, a realização da partida dependia unicamente da decisão do árbitro então escalado para substituir o titular.
E assim foi feito. Apesar do árbitro substituto, no caso Sua Senhoria Adalberto Henrique de Araújo, popularmente conhecido nas rodas do bairro Seis de Agosto como Porco Russo, estar interessadíssimo no gordo cachê pago pela CBF, não teve outro jeito. Com tudo alagado, o jogo foi adiado.
Por ter sido o jogo adiado, então, deu tempo o árbitro titular chegar ao destino e estar pronto para desempenhar as suas funções na manhã de domingo, depois de uma ótima noite de descanso, num dos quartos do Hotel Rio Branco, bem no centro da capital acreana, em cima do Cine Acre.
Por razões que só alguma vã filosofia poderia explicar, no entanto, o árbitro goiano dormiu mais do que deveria, e às 8 horas, em plena manhã de um domingo ensolarado, nada dele dar as caras no estádio. Razão pela qual novamente o apito foi entregue ao Porco Russo (ou Carroceiro, tanto faz).
Ao acordar às 8h30, o árbitro goiano pulou da cama e saiu às carreiras (literalmente), sem sequer escovar os dentes ou pentear o cabelo, para o Stadium José de Melo, chegando à praça esportiva quando o primeiro tempo já estava nos estertores. Chegou e tratou logo de vestir o seu uniforme.
Qual não foi a surpresa das equipes quando voltaram para o segundo tempo e viram um árbitro diferente, com cara de poucos amigos, chamando os capitães para explicar quais eram os seus métodos, onde até olhar feio para um adversário ensejaria a punição com um cartão amarelo etc. e tal.
Deu-se então o inusitado. A delegação paraense, desconfiada de que havia “gato na tuba” e que a troca de árbitro não passava de uma manobra da seleção acreana, não aceitou o goiano de jeito nenhum. O homem, então, foi obrigado a se retirar de campo e deixar o cachê para o Adalberto Araújo.
Em tempo: o Acre ganhou por 2 a 1.