Adriano Ferreira na sua mesa de trabalho no Shopping Popular. Foto/Manoel Façanha

Adriano: craque de bola e de conserto de panelas

MANOEL FAÇANHA

Nos primeiros anos da década de 1970, num campinho de terra batida do bairro Seis de Agosto, o então garoto Adriano Ferreira dos Santos desfilava um futebol fino com a camisa do imbatível Flamenguinho, equipe comandada pelo saudoso atleta Laureano.

Os anos se passaram e o campinho de terra batida das peladas de infância/adolescência acabou ficando pequeno para o talento apresentado pelo meia Adriano. Certo dia, o olheiro celeste Jaú ficou encantando pelo futebol do meia (na equipe amadora do Ypiranga) e resolveu fazer um convite para ele integrar a base do Atlético Acreano. O convite foi aceito e não demorou muito para o filho da cearense Maria de Lurdes e do acreano Luís Cassiano viesse a ganhar uma vaga na equipe principal do Galo Carijó.

O futebol elegante, veloz e o faro de gol apurado foram suficientes para o meia aparecer aos 17 anos (ele nasceu em 26/12/1961) na lista de atletas convocados da seleção acreana de juniores por três temporadas (1979,1980 e 1981). Na carreira futebolística, o meia Adriano ainda teve passagens por Rio Branco, Independência e São Francisco, encerrando a carreira aos 30 anos de idade (1991).

Seleção Acreana de Juniores – 1981. Em pé, da esquerda para a direita: Maurílio, Tonho, Gilmar, Normando, Jaime e Marquito. Agachados: Neivo, Pingoncinha, Adriano, Leco e Roberto Ferraz. Foto/Acervo Francisco Dandão

Chegada ao Galo, gol na estreia e as passagens pela seleção acreana de juniores

Na sua chegada para testes no Galo Carijó, o meia Adriano relembrou de alguns jogadores do time celeste. Um deles era o volante Tadeu Belém. Segundo ele, o volante foi fundamental para o crescimento da sua carreira de atleta.  “Quando cheguei para treinar na base do Atlético Acreano tive a oportunidade de conviver com grandes craques como Tadeu Belém (volante), Jaime (zagueiro), Manoelzinho (atacante), Tidal (goleiro) entre outros. Porém, o Tadeu Belém, além de jogar com elegância excepcional, era uma cara incrível e orientava a garotada a jogar o fino do futebol”, lembrou o meia.

Atlético Acreano – 1980. Em pé, da esquerda para a direita: Targino, Ilzomar, Jaime, Gilmar, Lécio e Bento – Paulinho Pontes, Adriano, Nirval, Pintinho e Raimundinho – Foto: Acervo Pessoal/Ilzomar Pontes.

Com 17 anos e vivendo boa fase física e técnica, isso na temporada de 1979, o meia Adriano já vestia a camisa de juvenis do Atlético Acreano. O treinador celeste Alício Santos, simpático ao futebol do meia, resolveu relacionar o atleta para o jogo da equipe principal diante do Floresta. “Foi uma estreia nervosa, mas positiva para a minha sequência no Galo Carijó. Lembro-me que marquei um dos gols da vitória celeste por 8 a 0”, pontuou Adriano Ferreira. 

O ex-jogador celeste explica ainda que um dos orgulhos na carreira é o fato de ser lembrado por três anos seguidos para fazer parte da seleção acreana de juniores (1979/1980/1981). “Fazer parte de um grupo de atletas qualificados como era aquele é algo que me deixa muito orgulhoso. Foram muitos momentos especiais e cheios de boas histórias. Uma delas, ocorrida na temporada de 1979, na cidade de Boa Vista-RR, quando ficamos hospedados num quartel da Polícia Militar e próximo ao nosso alojamento (sem portas) havia uma onça acorrentada. Detalhe: ninguém dormiu, apenas pegamos algumas traíras”, comentou sorridente o ex-atleta.

Conforme pesquisa do site Na Marca da Cal, no dia seguinte, o selecionado acreano encarou o combinado roraimense e perdeu por 2 a 1. Veja a escalação do time acreano: Normando; Tonho, Jaime, Bulico (Maurílio) e Cleber; Gerson, Edson, Adriano (Litro); Neto, Paulinho e Roberto. O gol acreano foi anotado por Litro, aos 15 minutos do 2º tempo. A partida foi dirigida pelo árbitro Isnard Galvão (MS). Após a partida, o técnico Aníbal Tinoco não poupou críticas ao árbitro e disse que o placar deveria ter sido 3 a 2 a favor do time acreano se não houvesse a anulação de dois gols legítimos anotados pela sua equipe, mas anulados escandalosamente pela arbitragem.

Entre uma das formações do escrete acreano, Adriano lembrou com saudosismo. Veja: Normando; Tonho, Jaime, Bulico e Marquito; Gilmar Sales, Adriano e Pingonçinha; Leco, Neivo e Roberto Ferraz. “Jaime, Gilmar Sales, Roberto Ferraz, Leco e Neivo tinham muita qualidade técnica”, disse o ex-jogador.

Seleção Acreana de Juniores – 1979. Em pé, da esquerda para a direita: Ayrton Ibyanez, Moisés, Normando, Lécio, Cleber, Gilmar, Klowsbey, Adriano, Viete, Markito, Jaime e Campos Pereira. Agachados: Mariolindo, Litro, Ademir, Gerson, Carioca, Neto, Edson Izidório e Roberto Ferraz. Foto: Acervo Pessoal/Luiz Cleber

Seleção ideal, gol inesquecível e outros clubes e a vida pessoal

Com seis jogadores que tiveram passagens com a camisa do Atlético Acreano, o meia Adriano elegeu sua seleção. Ele fez questão de defender em sua seleção dois nomes. O primeiro deles, o zagueiro Jaime. “O Jaime, apesar da estatura mediana, tinha impulsão e senso de posicionamento em campo excepcionais. O segundo nome é o do volante Tadeu Belém. “O Tadeu era muito clássico e jogava com a cabeça erguida. Um craque boa praça que tinha um passe refinado”. Veja a seleção do meia Adriano: Ilzomar Pontes; Sérgio Lopes, Jaime, Neórico e Duda; Gilmar Sales, Tadeu Belém e Mário Vieira; Roberto Ferraz, Gil e Neivo. O nosso personagem pediu permissão e comentou que outros quatro nomes figurariam na lista sem deixar nada a desejar aos presentes. Veja os nomes: Dadão, Mariceudo, Carlinhos e Said.

Atlético Acreano –  vice-campeão acreano de 1981. Em pé, da esquerda para a direita: Tidal, Pompeu, Gilmar, Cláudio e Erivaldo. Agachados: Manoelzinho, Medeirinho, Adriano, Toy e Joãozinho. Foto/Acervo Manoel Rodrigues.

A respeito do melhor dirigente, o ex-meia celeste falou com brilho nos olhos de dois cartolas. “O professor Adauto Frota (presidente do Atlético-AC) era um paizão para os jogadores do Galo enquanto o doutor Sebastião Alencar sempre estava à disposição dos jogadores do Rio Branco no sentido de escutá-los e ajudá-los”.

Quanto ao requisito de melhor treinador, Adriano ficou dividido entre os nomes de Alício Santos e de Tinôco. “O professor Alício Santos me lançou no futebol e era extremamente inteligente na arte de fazer um time competitivo jogar, enquanto o Tinôco, além de excepcional goleiro, era um técnico que tinha a capacidade de fazer bem a leitura do jogo”.

Atlético Acreano – 1983. Em pé, da esquerda para a direita: Tidal, Jaime, Marcos Aurélio, Pompeu. Gilmar e Erivaldo. Agachados: Joãozinho, Adriano, Manoelzinho, Medeirinho e Océlio. Foto: Acervo Pessoal/Adriano Ferreira

Sobre o gol inesquecível na carreira, Adriano elegeu o marcado no empate entre Atlético e Juventus por 4 a 4. O duelo ocorreu na temporada de 1983. “Era um clássico importante para os dois times na disputa do primeiro turno. Lembro-me que estávamos perdendo por 4 a 1, quando entrei no lugar do Océlio e minutos depois tive a felicidade de driblar vários jogadores da defensiva do Juventus e marcar um golaço. O gol fez bem ao nosso time que foi buscar o empate com gols do volante Gilmar e do atacante Medeirinho”, recordou ex-jogador.

 

Atlético Acreano – 1984. Em pé, da esquerda para a direita: Neves, Joãozinho, Cleiber, Pompeu, Tidal e Vela – Adriano, Toy, Isaac, Tinda e Pato. Foto: Acervo Pessoal/Adriano Ferreira
O ex-meia Adriano Ferreira anota um dos gols da vitória Atlético diante do Juventus, do goleiro Normando e do zagueiro Delcir. Foto/Manoel Façanha

Na carreira futebolística, consta no currículo de Adriano Ferreira uma passagem pelo Rio Branco no início dos anos 1980, mas com pouquíssimas oportunidades. O ex-jogador passou ainda pelas equipes do São Francisco, Adesg (clube ainda era amador) e, a convite do ex-jogador celeste e então técnico Manoelzinho, Adriano tentou retomar a carreira e chegou a fazer um jogo com a camisa do Independência diante do Andirá na temporada de 1991. “Eu lembro que entrei no transcorrer da partida com a camisa de número 14, mas acabei expulso com apenas um minuto em campo, após um desentendimento com o atleta andiraense Kerré. Isso pesou para um basta definitivo para eu encerrar a minha carreira de atleta”, lembrou Adriano.

A vida nos gramados do meia Adriano Ferreira poderia ter ido bem mais longe, mas o fato dos salários pagos aos atletas não trazerem até hoje uma estabilidade financeira, ele resolveu seguir uma carreira paralela ao futebol. Em 1980, ele aceitou uma oferta de emprego no extinto Banco Nacional, onde ficou até 1985, após uma transferência para o Banco Itaú, empresa que trabalhou até 1989. O ex-jogador explicou que o curto tempo dedicado aos treinos e a vida boemia atrapalharam uma boa sequência da carreira.

A vida do meia seguiu e neste período de mais de três décadas o ex-jogador enfrentou bons e maus momentos financeiros até se estabilizar no empreendimento de consertos de panelas, num dos boxes do Shopping Popular. “Certa vez, eu comercializando meus salgados, observei um senhor realizando conserto de panelas e achei muito interessante o ofício. Então perguntei a ele se poderia me ensinar o ofício e a resposta foi positiva e estou nesta profissão há 15 anos”, explicou Adriano Ferreira.

O ex-atleta Adriano Ferreira na frente do seu estabelecimento comercial no Shopping Popular. Foto/Manoel Façanha

Casado, protestante e pai de quatro filhos (Jéssica Adrianneyde, Lívia e Eduardo) e cinco netos, o ex-craque disse que o empreendimento de conserto de panelas deu certo, tanto que garante o sustento familiar e ainda teria sobrado dinheiro para a compra de um automóvel e uma casa própria.