POR MANOEL FAÇANHA
Nunca se viu no Brasil, às vésperas de uma Copa do Mundo, um clima tão monótono quanto o desta edição do Mundial, que se inicia no próximo dia 11 de junho em três países: Estados Unidos, Canadá e México. Ficam aqui alguns questionamentos: será que deixamos de ser o país do futebol? Esse desinteresse do torcedor brasileiro é momentâneo ou tudo ainda pode mudar da água para o vinho, conforme as possíveis vitórias que o time Canarinho venha a obter na competição?

O certo é que são muitas perguntas e poucas respostas para compreender esse desinteresse, que vai desde a “contaminação” pela polarização política no país — entre lulistas e bolsonaristas (muitos torcedores aposentaram a camisa amarela, por exemplo) — até a ausência de uma identidade dos jogadores com o torcedor. Isso se justifica pelo fato de muitos deles migrarem cedo para o futebol europeu, não criando vínculos com nossos clubes e torcedores. Outro fator não menos importante é a carência de craques em nossa Seleção, tanto que o país foi apenas o quinto colocado nas Eliminatórias Sul-Americanas.

Ausência de craques “canarinhos” contribui para o desânimo do torcedor
Sem querer desmerecer a atual geração, em qualquer lugar do país um “torcedor raiz” produz, em poucos segundos, uma lista de craques fabulosos que já vestiram a amarelinha: Pelé, Garrincha, Didi, Rivelino, Tostão, Gerson, Zico, Sócrates, Falcão, Éder, Reinaldo, Careca, Romário, Bebeto, Taffarel, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Roberto Carlos, Marcos, Kaká, Marcelo, Robinho e tantos outros.
Esses jogadores não somente tinham uma relação com o povo, mas eram geniais com a bola nos pés. A consequência dessa mistura de amor com futebol-arte era suficiente para criar uma legião de fãs do Oiapoque ao Chuí — algo raro na atualidade, às vésperas do Mundial.

Vendas em lojas e comércio ainda não atraíram o torcedor
É importante notar que, em edições anteriores, as vitrines das lojas estavam abarrotadas de verde e amarelo muito antes de a bola rolar, criando um clima favorável ao consumo e ao otimismo. Da mesma forma, produtos festivos (bandeiras, buzinas e afins) já estavam nas prateleiras à espera do público.

O marketing da indústria para o Mundial de 2026 parece ainda adormecido; tudo leva a crer que será necessário muito “jogo de cintura” da gerência das lojas e departamentos para atrair o interesse de consumo do torcedor. Em visita da nossa reportagem ao Shopping Popular, no coração de Rio Branco (AC), um comerciante confidenciou que ainda não comercializava figurinhas nem o álbum do Mundial, tampouco vendeu camisas da Seleção Brasileira. Segundo ele, um cenário muito estranho para o período que antecede o torneio.

Álbum da Copa do Mundo é ferramenta motivacional e lucrativa
Outro produto que ajuda a criar o clima do evento é o álbum de figurinhas. No entanto, sua presença no comércio sofreu um ligeiro atraso, o que pode comprometer a estimativa de faturamento, prejudicada pelo clima “frio” em torno da competição.
A garotada, porém, pouco liga para disputas políticas ou para a ausência de ídolos — a nova geração é globalizada com o futebol. Eles devem se desdobrar para comprar e trocar as 980 figurinhas (número 46% maior que em 2022) das 48 seleções participantes. O álbum, peça fundamental de marketing da competição é capaz de movimentar milhões — com faturamento estimado em R$ 140 milhões no Brasil —, e, recentemente, chegou às prateleiras locais (como Havan, Móveis Gazin e Agroboi).
O preço do álbum de capa dura custa R$ 74,90, e o pacote de figurinhas sai por R$ 7,00. A projeção é de que sejam vendidos 20 milhões de pacotes no país. Conforme especialistas, o custo para completar o álbum supera R$ 1 mil, podendo ultrapassar R$ 7 mil caso o colecionador dependa apenas da sorte com as figurinhas repetidas.
