Idioma global

Por esses dias eu estava pensando em como o futebol se tornou uma linguagem universal. Em qualquer lugar que se possa ir deste ainda vasto planeta Terra, a gente vai encontrar alguém que torce por time A ou B e que sabe pelo menos as regras básicas que regem o “esporte dos pontapés”.

Eu falei “esporte dos pontapés”, mas também poderia ter dito “esporte das cabeçadas”, “esporte das peitadas”, “esporte dos dribles”, “esporte dos gols”, sejam estes bonitos ou nem tanto. Poderia falar até “esporte dos gols de mão”, caso quisesse me referir a algum argentino já partido para o além.

As pessoas podem não compreender o que diz gente de outros idiomas e dialetos, caso não estudem a língua do interlocutor ou venham a se utilizar de algum desses aplicativos modernos que se pode baixar no celular, mas entendem tranquilamente quando alguém fala de uma bola rolando.

Em todos os lugares do mundo onde eu já pousei os meus pés, encontrei pessoas que, ao saber que eu era brasileiro, puxaram assunto sobre Pelé, ou Garrincha, ou Ronaldo Fenômeno, ou Ronaldinho, ou Neymar. Sempre houve alguém querendo saber alguma coisa de um desses caras.

Uma vez, em Madri, capital da Espanha, teve um garçom do hotel onde eu estava hospedado, um certo Miguelito, que sabia tudo sobre o Didi, o nosso maestro nas conquistas dos campeonatos mundiais de 1958 e 1962. Sabia até que o craque era chamado no Brasil pelo apelido Príncipe Etíope.

Outra vez, em Lima, capital do Peru, eu entrei num bar onde havia uma pequena aglomeração em torno de uma mesa. Ao me aproximar vi no centro da roda o ex-jogador Teófilo Cubillas, meia-atacante da seleção peruana na Copa de 1970, um dos maiores craques do futebol no século XX.

Por não resistir e me meter na conversa, com meu portunhol deficiente, fui imediatamente identificado como brasileiro. E aí, para minha surpresa e um certo constrangimento, acabei por dividir a atenção da galera, que queria saber mais sobre Pelé, Rivellino, Clodoaldo e companhia ilimitada.

Em Cartagena das Índias, Colômbia, no primeiro semestre de 2013, um ano antes da Copa do Mundo de 2014, a maioria das conversas com os nativos girava em torno da figura do Neymar. E não raro, como no caso do Didi, em Madri, a turma de lá sabia mais do que eu sobre o craque brasileiro.

É isso. Misterioso e inexplicável, muito além da possibilidade de compreensão ou de explicações filosóficas, é o fenômeno do futebol, que causa interesses tão convergentes nos indivíduos de tão diversas origens e culturas. Que assim continue sendo, para além de qualquer nefasta ideologia!