As minhas narrativas familiares dão conta de que eu nasci canhoto. Se alguém rolava uma bola na minha direção e pedia para que eu chutasse, eu usava sempre o pé esquerdo. Da mesma forma, a primeira vez que eu peguei em um lápis para rabiscar algumas letras, eu o fiz com a mão esquerda.
Mas a escola e a educação em casa me obrigaram a trocar tanto de pé quanto de mão preferencial. Sei lá por quais razões. Talvez por conta de fazer parte de um contingente menor da população, a professora e os pais diziam que eu deveria ser destro, que escrever ou chutar de canhota era uma abjeção.
E assim, dessa forma oblíqua, eu segui na vida escrevendo torto e chutando sem direção. Penso até que foi por isso, por causa dessa subversão dos educadores, que eu não me dei bem quando tentei, na adolescência, ser jogador de futebol. E também quase não consigo escrever de forma manual.
Algumas situações, porém, apesar de tudo, resistiram ao assédio educativo. E então, em se tratando de futebol, eu sempre gostei mais dos caras que atuavam/atuam pela extremidade esquerda do campo. Ou que, sendo armadores, fazem do pé esquerdo o objeto de operar a sua magia.
Enquanto escrevo, eu vou lembrando de artistas do futebol que fizeram do lado esquerdo do gramado o seu latifúndio de sensibilidade, o local onde tantos e tantos laterais se tornaram involuntariamente objetos de riso das arquibancadas, tomando dribles desmoralizantes e se estatelando no chão.
Casos de Edu (Santos), Denílson (São Paulo), Júlio César (Flamengo), Paulo Cezar Caju (Botafogo), Zagallo (Botafogo), Pepe (Santos), Canhoteiro (São Paulo), Éder Aleixo (Atlético Mineiro), Vinícius Júnior (Real Madrid), Joãozinho (Cruzeiro), Neymar (Santos), Lula (Fluminense) etc. e coisa e tal.
Ou então, em se tratando de armadores/laterais, quem ousaria duvidar da bola dos canhotos Djalminha (Flamengo), Alex (Palmeiras), Rivaldo (Palmeiras), Gerson (Botafogo), Branco (Fluminense), Roberto Carlos (Palmeiras), Marcelo (Fluminense), Felipe (Vasco) e Rivelino (Corinthians)?
Sei, do lado direito também teve gente de muito talento. Garrincha, Jairzinho e Julinho Botelho creio que foram os três maiores. Mas aí, pelas minhas origens naturais, conforme eu falei no início desta crônica, a minha simpatia vai toda para aqueles caras que furaram a bolha da repressão.
É isso, galera. Se eu fosse treinador, diria para os meus jogadores que o mapa da mina que conduz ao tesouro passa pelo lado esquerdo do campo. O lado direito serviria somente para “dar uma enganada” nos adversários. O lado direito seria usado para “ludibriar” e o esquerdo para “conquistar”!