MANOEL FAÇANHA
Um dos clubes mais tradicionais do Acre, o Independência FC, chamado por seus torcedores pelo glorioso epíteto de Tricolor de Aço, completa neste domingo, 2 de agosto, 80 anos de existência. O clube foi fundado no ano de 1946 por um grupo de empresários da cidade de Rio Branco, sendo que inicialmente a agremiação foi chamada de Ypiranga Futebol Clube. O seu primeiro presidente foi o jornalista Tufic Asmar e o uniforme foi constituído de camisa com listras verticais vermelhas, verdes e brancas, calção branco e meias brancas. Os desenhos do uniforme e do escudo fazem referência ao Fluminense, do Rio de Janeiro.
Conforme relatos do saudoso jornalista José Chalub Leite, na peça “Futebol Acreano em Revista”, o Independência nasceu com origem humilde: “Ao contrário do Rio Branco, clube de elite, fundado no dia 8 de junho de 1919, por intelectuais e gente rica, e por isso mesmo poderoso. Já o Independência teve sua origem humilde: os jogadores sem vez nos maiores times da época, como Rio Branco, Boulevard, União, América e Fortaleza, onde não tinham oportunidade de exibir suas “craquezas”. Era gente pobre, humilde, decente, como o músico Cotia, Baiano, Américo Vilela, os irmãos José Pedrinho e Calila Alab, Chico Tina, Raimundo Cleómenes Popó, Ribamar, Gaguinho, Curitiba Montenegro, Manoel Araújo (Manoca), a maioria integrantes da ex-Polícia Militar do Território do Acre”.
Nestas oito décadas de existência, o clube do Marinho Monte, ao lado de Juventus, Rio Branco e Atlético Acreano, forma o quarteto dos times mais tradicionais do futebol do Acre, inclusive, apontado como o clube de maior torcida do futebol local durante as décadas de 1970, 1980 e 1990. No entanto, aos poucos, pela ausência de títulos, a torcida tricolor diminuiu de forma considerável. Nem mesmo o bicampeonato estadual (2024/2025) e o retorno da participação nas competições nacionais (Copa do Brasil, Copa Verde e Campeonato Brasileiro da Série D), foi suficiente pra trazer o torcedor tricolor de volta as arquibancadas.
Na década de 1970, o Tricolor de Aço formou grandes esquadrões
Numa viagem no tempo, fica evidente que a época mais gloriosa do clube ocorreu durante as décadas de 1970/1980. Neste período, o Tricolor de Aço conquistou cinco estaduais (1970/1972/1974/1985/1988) e formou vários esquadrões com atletas de altíssimo nível, entre os quais podemos citar alguns jogadores que figuraram na agremiação na década de 1970: Aldemir Lopes, ponta de lança que parecia levitar em campo; Escapulário, armador bailarino que dançava com a bola nos pés; Bico-Bico, ponteiro veloz e driblador e lendário pela vida boêmia; e Palheta, zagueiro ao mesmo tempo duro (no combate ao adversário) e clássico (com a bola nos pés), além do goleiro José Augusto, verdadeira muralha tricolor.
No ano de 1973, a equipe do Marinho Monte contou numa partida amistosa, contra o Atlético-AC, com a presença do lendário bicampeão mundial Mané Garrincha vestindo a camisa tricolor. Na mesma partida, Garrincha, já aposentado, jogou um tempo de jogo pelo Galo Carijó.



4ª partida: a história da maior polêmica do futebol acreano
Boa parte da nova geração de torcedores não conhece um dos maiores imbróglio da história do futebol acreano, a qual foi batizada pela velha guarda da crônica esportiva de “quarta partida”, num duelo envolvendo as equipes do Independência e do Juventus e válida pelo título do Campeonato Acreano de 1972, mas com desfecho ocorrido somente no mês de dezembro de 1973.
Conheça a história do imbróglio
Naquela época, a Federação Acreana de Desportos (FAD) era presidida pelo dirigente Carlos Simão e as equipes do Juventus e Independência eram presididas pelos irmãos Elias e Eugênio Mansour, respectivamente.
Na final do primeiro turno da competição, o Juventus venceu o Internacional por 2 a 0, enquanto no returno, o Independência conquistou o título de forma invicta e sem sofrer gols. Um cenário propicio de adrenalina para as duas torcidas. Os dois primeiros jogos das finais registraram dois empates (2 a 2 e 0 a 0) e bastaria mais um empate para a torcida tricolor soltar o grito de campeão, algo ocorrido, mas no entendimento dos juventinos, não era bem assim, pois o Clube do Povo reivindicava os gols da partida extra do primeiro turno contra o Internacional-AC.
Veja os fatos
Conforme a peça “Futebol Acreano em Revista”, a Federação Acreana de Desportos (FAD), preocupada com o desfecho da competição, teria importado o árbitro paulista Oscar Scolfaro, e marcando a grande final para o dia 13 de janeiro de 1973, mas um acordo entre os dirigentes teria adiado a partida. Uma semana depois, não ocorrendo consenso entre os dirigentes, o presidente Carlos Simão baixou uma portaria proclamando o Independência campeão. Foi um estopim para o início da maior batalha judicial jamais vista por um título do futebol local.

A decisão da FAD, porém, não durou muito, isso pelo fato da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), hoje CBF, baixar uma resolução ordenando uma quarta partida. Chateado com a situação, o presidente Carlos Simão (FAD) pede licença do cargo por 90 dias e deixa o pepino na mão do vice-presidente Adel Derze, esse baixando uma portaria e marcando a quarta e decisiva partida para o dia 03 de maio de 1973, mas acontece que o Independência não apareceu para o duelo, assim com a FAD declarando o Juventus campeão.
Ocorre que o Independência, através do advogado do clube, Adherbal Maximiano Caetano Corrêa, não satisfeito com a decisão, baixou nota de protesto, onde alegou que a FAD havia desrespeitado o inciso ‘g’ do artigo 18 do estatuto da entidade, isso fundamentado no fato que o Independência havia participado do Torneio Início e, para disputar a quarta partida, seriam necessários 72 horas de intervalo, como preceituava a portaria 13, de 30 de abril de 1973. No entanto, o presidente da mentora Adel Derze, mesmo sendo declarado torcedor do Independência, não aceitou os argumentos dos cartolas tricolores e manteve o título para o Juventus.

Quase seis meses depois, o Conselho Nacional de Desporto-CND, decidiu pela realização de uma quarta partida. O presidente Adel Derze cumpriu com a determinação e marcou o jogo para o dia 2 de dezembro de 1973, no Stadium José de Melo, com arbitragem de José Ribamar Pinheiro de Almeida, assistido por Antonio Soares e Sebastião Pedrosa.
Veja as escalações
O Juventus foi escalado com: Milton; Zé Maria, Mauro, Mustafa e Antônio Maria; Roberto Pitola, Pingo Zaire e Hermínio; Edson Carneiro, Eliézio e Elísio. Já o Independência foi a campo com: José Augusto; Uchoa, Palheta, Jorge e Flávio; Eró, Manoel e Escapulário; Aldemir, Bebé e Tonho.
Como foi a decisão
Com a bola rolando, as equipes empataram por 1 a 1, resultado que provocou uma prorrogação de meia hora. Um novo empate, mas agora sem gols, levou a decisão do título para as cobranças de penalidades, dando, assim, ares de dramaticidade àquela inesquecível partida, onde o Tricolor de Aço, mostrando mais eficiência e sangue frio, derrotou o Clube do Povo por 4 a 3. Eró, Aldemir, Palheta e Escapulário marcaram para o Independência, enquanto, Mauro, Hermínio e Zé Maria fizeram os gols juventinos. Erraram ou desperdiçaram suas penalidades os atletas Flávio (Independência) e Mustafa e Antônio Maria (Juventus).
Os grandes cartolas e a torcida apaixonada
Entre os grandes dirigentes do clube do Marinho Monte podemos citar Adalberto Aragão, Darci Pastor, Adherbal Maximiano Caetano Correa, Eugênio Mansour, Hélio Amaral, José Esteves, Gersinho, Orlando Sabino, Valdir Silva, Jose Eugênio Leão Braga, o Macapá, e entre outros.
Na década de 1980 o Tricolor de Aço papou os títulos de 1985/1988
Na década de 1980, o Independência ainda montou boas equipes. Tanto que levantou o “caneco” de campeão acreano em duas oportunidades: 1985 e 1988. Vários jogadores de ótimo nível técnico vestiram a camisa tricolor nessas campanhas. Casos, por exemplo, de Paulinho Rosas, Emilson Brasil, Klowsbey, Sabino, Antônio Júlio, Paulo Roberto, Jaime, Mariceudo, Carlinhos Bonamigo, Cardosinho, Vinicius Martins, Isaac, Paulão etc.












VEJA OS TÍTULOS – No currículo histórico de títulos, consta que o Tricolor de Aço ergueu por 22 vezes o troféu de campeão na categoria principal. Treze deles pelo campeão acreano da elite (1954, 1958, 1959, 1963, 1970, 1972, 1974, 1985, 1988, 1993, 1998, 2024 e 2025); Três vezes do Torneio Início (1958, 2001, 2004); Três vezes da Taça Cidade de Rio Branco (1969, 1971 e 1972); Três vezes do Torneio do Povo (1981, 1982, 1986) e uma vez da segunda divisão (2018). 







Tricolor não avança no Acreanão, fica na 2ª fase da Série D, mas conquista o Sub-20
Com um time praticamente todo reformulado após a conquista do bicampeonato da elite do futebol acreano (2024–2025), o Independência, sob o comando do técnico Ivan Mazzuia, sequer chegou às semifinais da competição nesta temporada, ficando sem calendário nacional para o próximo ano.
O Tricolor de Aço também foi eliminado na primeira fase em dois torneios nacionais: a Copa do Brasil e a Copa Norte. Já no Campeonato Brasileiro da Série D, o clube avançou para a segunda fase, mas acabou eliminado pelo Manauara-AM.
Na base, mais precisamente na disputa do Campeonato Sub-20, o Independência quebrou paradigmas importantes na história de suas participações no torneio. O clube, que não conquistava o Campeonato de Futebol Sub-20 há exatos 24 anos, saiu da última posição na temporada passada para o topo do pódio. Sob o comando do técnico Kinho Brito, a equipe venceu o favorito Santa Cruz na decisão — após dois empates e uma vitória nas cobranças de pênaltis por 3 a 0.
Com o triunfo, o Independência não somente conquistou uma vaga para a disputa da próxima Copa do Brasil Sub-20, mas será o único representante acreano na disputa da Copa São Paulo de Futebol Junior 2027.
A campanha do Tricolor de Aço rumo ao título Sub-20 registrou os seguintes números: 7 vitórias, 4 empates e apenas uma derrota. O time marcou 40 gols, sofreu 10 e encerrou com um saldo positivo de 30 gols, somando 25 pontos.

Veja alguns depoimentos personalidades
O Tricolor de Aço completa neste domingo (2), 78 anos de história. O site na Marca da Cal/Acre News resolveu pegar o depoimento de alguns personagens que fizeram parte ou vivenciaram momento riquíssimos da história de títulos e conquistas da agremiação.
O eclético lateral e técnico Paulo Roberto Oliveira

O eclético Paulo Roberto Oliveira, ex-jogador e técnico do Independência lembra com felicidade da sua passagem pelo Tricolor de Aço, onde conquistou o vice-campeonato de 1984 e o título da temporada 1985. Oliveira, que ainda treinou o clube em duas oportunidades (1993 -2005), comentou que o Independência teve contribuição importante na sua trajetória de atleta, elogiando a diretoria da época e a apaixonada torcida tricolor. “Eu tenho muito carinho e lembranças positivas da minha passagem por essa agremiação história que é o Independência” comentou o ex-lateral direito e hoje funcionário público aposentado da Universidade Federal do Acre (Ufac), professor da Escolinha do Botafogo Academy e comentarista do programa esportivo “Bancada da Bola”, da TV5.
Do Tricolor de Aço para o Remo e a Europa

Um dos grandes craques da história do futebol acreano, o atacante Artur Oliveira, lembra com gratidão da sua passagens pelo Independência. “Eu sou muito grato ao Tricolor de Aço e aos dirigentes do clube da época (alguns deles já em outro plano espiritual, como Hélio Amaral, Raimundo Ferreira e Campos Pereira), mas que foram importantíssimos na minha saída do estado para o Clube do Remo”, disse o ex-jogador e hoje trabalhando na equipe do prefeito de Rio Branco, o odontólogo Alisson Bestene.
Cronista esportivo enaltece a história do Independência
O experiente cronista esportivo Francisco Dandão, colunista do site Na Marca da Cal, acompanhou boa parte da história do clube durante essas quase oito décadas de existência do clube. Segundo ele, a história do Independência se confunde com a própria história do Acre, tantas as figuras importantes da política, da sociedade e dos esportes que, de alguma forma, contribuíram para o sucesso do clube. Certamente, sem o Independência o futebol acreano seria outro bem menor.

Da Princesinha do Acre para o Tricolor de Aço
O xapuriense Julinho, atacante do Independência no vice-campeonato de 1984, perdido para o Juventus por 1 a 0, gol do atacante Antônio Júlio, em final arbitrada pelo renomado árbitro Jose Roberto Wrigth, explicou que desde criança tinha um sonho de jogar num clube da capital Rio Branco e, apesar de escutar jogos transmitido por rádio do eixo Rio-São Paulo, tinha como ídolos craques do futebol local, como Emilson, Mariceudo e Carlinhos Bonamigo. O artilheiro foi outro a falar da apaixonada torcida do Tricolor de Aço. “A torcida do Independência era coisa ímpar. Eu ficava emocionado quando entrava em campo e via a massa tricolor nos apoiando a cada minuto de jogo. Era de emocionar a alma de qualquer jogador”, lembra com saudosismo o ex-jogador e hoje professor de Educação Física.





