O 8º capítulo da coluna “Memórias da Copa” trouxe aos leitores a história das eliminações dolorosas do Brasil nas Copas de 1986 e 1990. O texto abordou a derrota brasileira nas quartas de final para o selecionado francês e também a eliminação do time Canarinho para a Argentina, da dupla Maradona e Caniggia, em 1990.
Passadas duas eliminações em Mundiais da FIFA (1986 e 1990) para o futebol brasileiro, iremos discorrer sobre outras duas Copas (1994 e 1998). Na primeira, o Brasil conseguiu quebrar um jejum de 24 anos sem uma taça de campéão, enquanto na segunda, a Seleção Brasileira perdeu a grande decisão para a França por 3 a 0.
Nos pênaltis, Brasil supera a Itália e é tetra, em 1994

A Copa do Mundo FIFA de 1994 foi sediada nos Estados Unidos. Apesar da pouca tradição norte-americana no futebol, foi este Mundial que bateu todos os recordes de público — mantidos até os dias de hoje —, tanto o de maior público total, com 3.587.538 espectadores, quanto o de maior média por jogo, registrando 68.991 torcedores por partida. Com um futebol extremamente eficiente e um grupo muito unido liderado pelo polêmico craque Romário, a Seleção Brasileira conquistou o quarto título mundial ao bater a Itália na final.
Ainda no campo de jogo, aproveitando os festejos pela conquista histórica, a equipe decidiu homenagear o piloto brasileiro de Fórmula 1, Ayrton Senna, que morrera cerca de dois meses antes em um terrível acidente ocorrido no GP de Ímola, em San Marino. A homenagem veio estampada em um cartaz que dizia: “Senna, Aceleramos Juntos. O Tetra é Nosso”.
Reino Unido fora da Copa dos EUA

Pela primeira vez desde o pós-guerra, nenhum país integrante do Reino Unido se classificou para a Copa do Mundo: Inglaterra, País de Gales, Irlanda do Norte e Escócia. A França e o Uruguai foram outras seleções que não foram para o Mundial. Por outro lado, quatro equipes se classificaram pela primeira vez para uma Copa: Arábia Saudita, Grécia, Nigéria e Rússia — sendo que esta última já havia participado anteriormente integrando a antiga União Soviética.
O boliviano “El Diablo” é expulso na estreia contra a Alemanha

A edição foi aberta no estádio Soldier Field, em Chicago, no dia 17 de junho, com direito a uma performance da cantora Diana Ross. No mesmo dia, aconteceu o jogo de abertura entre a Alemanha (em sua primeira Copa reunificada) e a Bolívia. A seleção alemã venceu o jogo por um magro 1 a 0, gol do atacante Jürgen Klinsmann. Nesse jogo, o craque boliviano Marco Etcheverry, que tinha tudo para se destacar, recebeu o primeiro cartão vermelho desta Copa ao agredir Lothar Matthäus, fazendo jus ao apelido de “El Diablo”.
Copa do Mundo FIFA dos EUA foi recheada de surpresas em 1994

Foi uma Copa do Mundo de grandes surpresas. A Bulgária, de Hristo Stoichkov — que até ali, em seis participações anteriores, jamais havia vencido um jogo de Copa do Mundo —, superou grandes favoritos. Os búlgaros foram os segundos colocados em um grupo que tinha a Argentina e ainda eliminaram, em um jogo emocionante, a Alemanha (então a campeã mundial defensora) por 2 a 1 nas quartas de final. A equipe chegou à semifinal e terminou em 4º lugar.
O craque argentino Diego Maradona testou positivo para a substância proibida efedrina. Como consequência, o principal craque e capitão argentino foi banido da competição pela FIFA após disputar dois jogos: Grécia (4 a 0) e Nigéria (2 a 1). Sem Maradona e com Caniggia lesionado, a Argentina não conseguiu conter o embalo da seleção romena (liderada por Hagi) e acabou eliminada precocemente no estádio Rose Bowl, em Los Angeles, após uma derrota por 3 a 2.
Campanha do Brasil no Mundial dos EUA – 1994
O Brasil fez a seguinte campanha: duas vitórias e um empate na fase de grupos (2 a 0 contra a Rússia, 3 a 0 contra Camarões e 1 a 1 contra a Suécia); nas oitavas de final, derrotou os Estados Unidos por 1 a 0; nas quartas de final, eliminou a Holanda por 3 a 2; na semifinal, venceu a Suécia por 1 a 0.
Na grande final, o Brasil jogou contra a Itália, e a partida terminou empatada em 0 a 0 nos 90 minutos do tempo normal e na prorrogação. O Brasil conquistou o título após ganhar a disputa por pênaltis pelo placar de 3 a 2, tornando-se a primeira seleção tetracampeã mundial de futebol.
Brasil é o primeiro tetracampeão mundial da FIFA (1958/1962/1970/1994)

O Brasil recuperava a coroa depois de 24 longos anos (cinco edições seguidas sem vencer) e conquistava, assim, o inédito quarto título da Copa do Mundo — o Tetracampeonato. O maior destaque da Copa dos EUA foi o “baixinho” Romário que, com seus cinco gols e uma assistência inesquecível — aquela em que deixou Bebeto na cara do goleiro americano Tony Meola —, acabou confirmando a espetacular fase vivida no Barcelona. O desempenho fez por merecer a escolha da FIFA, que o elegeu o melhor jogador da Copa de 1994.
Os artilheiros da Copa do Mundo de 1994 foram o búlgaro Hristo Stoichkov e o russo Oleg Salenko, ambos com 6 gols marcados.
Com recorde de participantes, França conquista o título do Mundial
A Copa do Mundo FIFA de 1998 ocorreu de 10 de junho até 12 de julho de 1998, sediada na França. Pela primeira vez, trinta e duas seleções nacionais se classificaram para participar do campeonato, sendo quinze delas europeias, oito americanas, cinco africanas e quatro asiáticas. O torneio foi marcado por goleadas, entre elas: França 4 x 0 Arábia Saudita, Brasil 4 x 1 Chile, Espanha 6 x 1 Bulgária, Holanda 5 x 0 Coreia do Sul e Argentina 5 x 0 Jamaica.
Com Ronaldo abaixo das condições ideais, Brasil perde para a França por 3 x 0
A final da Copa do Mundo FIFA de 1998 foi disputada pela França, que havia eliminado a Croácia, a Itália e o Paraguai, e o Brasil, que havia deixado para trás a Holanda, a Dinamarca e o Chile. A partida foi realizada em 12 de julho às 21 horas, no Stade de France, com um público estimado em 80 mil pessoas.

Sob o apito do árbitro marroquino Said Belqola, Zinédine Zidane marcou duas vezes no primeiro tempo e Emmanuel Petit ampliou aos 48 minutos do segundo tempo. A partida terminou em 3 a 0, derrotando a Seleção Brasileira, então a última campeã do mundo e única tetracampeã da época.
O capitão francês Didier Deschamps levantou a taça do primeiro título da França em Copas do Mundo. Ele voltaria a conquistar um título mundial com a seleção francesa 20 anos depois (em 2018), dessa vez como técnico, juntando-se ao brasileiro Zagallo e ao alemão Franz Beckenbauer no seleto grupo dos que conseguiram esse feito como jogador e como treinador.

Ronaldo aponta estresse como responsável por convulsão em 98
A final da Copa do Mundo de 1998 marcou a carreira de Ronaldo Fenômeno. Além do amargo vice-campeonato contra a França, o então camisa 9 da Seleção Brasileira sofreu uma convulsão no dia da final. Mais de duas décadas depois do episódio, o agora ex-jogador acredita que o problema se deveu ao estresse pela decisão do Mundial. Em entrevista ao “Fantástico” para a divulgação de seu documentário, Ronaldo afirmou: “A única coisa que eu posso atrelar a uma convulsão no dia da final da Copa do Mundo é realmente esse estresse”.

Michel Platini polemizou ao afirmar que o sorteio foi “manipulado”
A França, anfitriã, e o Brasil, último campeão, foram cabeças de chave por direito. Os outros cabeças de chave foram escolhidos da seguinte forma: a FIFA definiu que seriam eleitos através de um ranking que levaria em conta a participação das seleções nas últimas três Copas e a posição no ranking da FIFA de 1995 a 1997. Com isso, a Romênia credenciou-se a este grupo, ao lado de Brasil, França, Alemanha, Argentina, Itália, Holanda e Espanha.

Em uma entrevista dada em 2018 ao programa de TV France Bleu, Michel Platini polemizou ao afirmar que o sorteio foi “manipulado” para que Brasil e França fossem cabeças de chave dos grupos A e C, garantindo que só pudessem se enfrentar em uma eventual final, já que esse “era o sonho” da entidade máxima do futebol. Segundo as normas da FIFA, porém, a prática é proibida, uma vez que as seleções devem ser sorteadas uma a uma de forma livre.
“Não iríamos preparar uma Copa do Mundo durante seis anos para não fazer pequenas travessuras, não é? Você acha que os demais também não fizeram?”, indagou Platini.
CURIOSIDADE
Os jogos da Copa do Mundo foram transmitidos para 200 países e 818 fotógrafos foram credenciados para o torneio. Em cada partida, um estande era reservado para a imprensa. O número de vagas concedidas atingiu o seu máximo na final, quando estavam presentes na tribuna 1.750 repórteres e 110 comentaristas de televisão.
Ronaldo Fenômeno ganha a Bola de Ouro; Suker é o artilheiro

Mesmo com o problema clínico na véspera da decisão e a perda da Copa do Mundo de 1998, Ronaldo Fenômeno foi eleito o Bola de Ouro da competição. Já a Croácia debutou naquele Mundial e ficou com o 3º lugar ao superar a Holanda, além de consagrar o artilheiro do torneio: Davor Suker anotou seis gols na oportunidade, com direito a um gol na classificação em cima da Alemanha nas quartas de final e outro na eliminação para a França na semifinal.
