Motivos de uns e outros

Os pássaros que na crônica passada eu mencionei como as criaturas que me avisavam sobre quem ganharia partidas na Copa do Mundo sumiram de Copacabana. Eu olho para o céu na mesma hora em que eles costumavam passar e não os vejo mais. Me deixaram à deriva num mar de possibilidades.

Dessa forma, como não tenho mais a profecia voadora, me pego aqui na frente do meu parceiro computador tentando encontrar motivos que me façam vislumbrar quem merece mais erguer a taça do mundo neste domingo: o veterano argentino Lionel Messi ou o jovem espanhol Lamine Yamal.

Pelo lado da Argentina, penso que um bom motivo pode ser encontrado na literatura do mago Jorge Luís Borges, sujeito que passou a vida a meditar sobre o tempo, afirmando que os caminhos deste se bifurcam a cada instante, fazendo com que surjam as mais diversas sequências.

Pois não seria o multiplicar desses caminhos dos quais nos fala Borges o que faz os craques da seleção “Albiceleste” marcarem seus gols apenas no final das partidas, quando todos já acham que o confronto vai ser decidido nas penalidades? É a lógica reversa que determina o lugar da queda do raio.

Ou então, ainda usando os ensinamentos de Borges, o fato de a Argentina marcar quando ninguém mais espera não estaria traduzindo a ideia de que a eternidade não se refere a um tempo sem fim, mas, isso sim, a própria ausência desse tempo, como se apenas existisse o momento do gol?

No caso da Espanha, me ocorre procurar motivos nas palavras de Federico García Lorca, para quem o destino, o amor e a paixão, representados pelo povo cigano, andavam de braços dados, tanto podendo alçar voo para o espaço sideral quanto mergulhar rumo ao abismo e à morte.

Se a gente prestar bem atenção, na evolução no campo de jogo da seleção espanhola, que em um dia já foi “fúria” e em outro já foi relógio, vai ver que os seus rapazes jogam como quem flutua. É a força do vento que parece impulsionar os chutes deles: ora sopro de brisa, ora furacão arrasador.

Num instante fingem que vão e não vão, tocam lateralmente, como que se estivessem a brincar de rodinha de bobo. Em outro momento, fingem que ficam, olham com displicência para os telões e, de repente, movidos pelos acordes de guitarras andaluzas, partem para cima dos seus inimigos.

Resumindo a ópera (ou o tango): com Jorge Luís Borges ou García Lorca a gente pode sempre cruzar os portais da fantasia. Ambos, do alto dos camarotes do estádio, provavelmente não param de sorrir. E enquanto o título não chega, a identidade do campeão permanece só um enorme mistério!