POR MANOEL FAÇANHA
A Rádio Difusora Acreana (RDA), emissora também chamada de “Voz das Selvas” — apelido justificado pelo alcance de suas ondas, que atravessam rios e varadouros para chegar aos ouvidos de centenas de comunidades inseridas em florestas nativas —, completa nesta terça-feira (25) 82 anos de serviços prestados ao povo acreano.


No momento em que a emissora celebra suas Bodas de Cravo, vale lembrar que um vasto quadro de colaboradores da crônica esportiva acreana embalou durante várias décadas o coração de milhares de torcedores. Muitos desses profissionais, de forma romântica, narraram e transcreveram fatos memoráveis do nosso esporte. Entre eles, destacam-se figuras como Gerardo Madeira, José Valentim, Nivaldo Paiva, Marte Rocha, João Nascimento(técnico), José Lopes, Paturi, Campos Pereira, Urbano Franco, Delmiro Xavier, Joaquim Ferreira, Etevaldo Gouveia, Estevão Bimbi, M. Costa, Roberto Vaz, Raimundo Nonato (“Pepino”). Há também o narrador esportivo Zezinho Melo, hoje aos 76 anos e ainda bem ativo nas coberturas esportivas, além de outros dois decanos da crônica local: Chico Pontes (que não trabalha mais na emissora, mas continua na ativa) e o comentarista Raimundo Fernandes.



Zezinho Melo: o melhor grito de gol da selva
Há quase seis décadas, o narrador esportivo José Francisco de Melo Filho, o Zezinho Melo, teve sua primeira experiência com um microfone de rádio. Nascido no dia 30 de julho de 1950, na cidade de Brasileia (AC), o cronista começou lendo mensagens na Rádio Difusora Acreana. Depois, assumiu um programa próprio de variedades chamado Parada Jovem. Nele, havia o quadro “Não diga sim nem não”, no qual o ouvinte que telefonava devia responder a algumas perguntas sem pronunciar as palavras proibidas pelo título. Segundo Zezinho Melo, foi um sucesso na época.


Com 65 anos de convivência com a emissora — ele chegou à RDA aos 11 anos para exercer a função de office boy —, Zezinho iniciou a carreira de narrador a convite do cronista José Lopes, após este flagrar suas transmissões de partidas fictícias em 1970. Lopes o convidou para um período de testes e, pouco depois, ele foi integrado ao time esportivo da casa.

Conforme relatos do jornalista esportivo Francisco Dandão para a obra Enciclopédia do Rádio Esportivo Brasileiro, Zezinho Melo, nesse período, dividia o tempo entre as narrações, os treinos e os jogos em que atuava como lateral-esquerdo do Rio Branco FC e, posteriormente, do Internacional. Nos dias de rodada dupla, quando o seu time estava em ação, ele narrava uma das partidas e jogava a outra. “Quando eu jogava na preliminar, subia para a cabine todo suado. E quando jogava na partida de fundo, vestia o uniforme de jogo ainda na cabine”, pontuou.

Evandro Saraiva e Gilmara Bandeira venceram a prova dos 60 anos da RDA
O aniversário de 60 anos da Rádio Difusora Acreana será sempre uma data inesquecível não somente para o então diretor da emissora, o jornalista Washington Aquino, mas também para o fundista Evandro Saraiva. Natural de Rodrigues Alves e estreante em grandes provas de rua, o atleta superou o favorito Fabiano Oliveira, conquistando o primeiro lugar e uma premiação de R$ 800,00. Saraiva cruzou os 15 quilômetros de prova com o tempo de 50 minutos e 58 segundos.
Na categoria feminina, a fundista Gilmara Bandeira cruzou a linha de chegada na primeira posição, superando Vânia Nonata e Roselane Alves. Bandeira, que fechou a prova no tempo de 1h06min37s, garantiu uma premiação de R$ 500,00.

Artigo resgata a história da Rádio Difusora Acreana
Inaugurada no penúltimo ano da Segunda Guerra Mundial, precisamente em 25 de agosto de 1944, a Rádio Difusora Acreana chega aos seus 82 anos com o sentimento de dever cumprido.
Em uma viagem pela história do rádio brasileiro, os escritores Francisco Dandão e Jefferson Henrique, com base em pesquisas, descreveram em um artigo a chegada do veículo ao país — ferramenta lançada por um grupo de intelectuais sob a tutela de Roquette-Pinto, que enxergavam no rádio um meio com finalidades educativas e culturais. Os autores explicam que a primeira transmissão radiofônica no Brasil ocorreu em 7 de setembro de 1922, como parte das comemorações do Centenário da Independência.
Os dois escritores apontam que o rádio chegou ao território acreano no início da década de 1940, em um momento marcado mundialmente pela Segunda Guerra Mundial. Para compreender o cenário, é fundamental a contextualização histórica. Fundamentando-se no livro História do Acre, do historiador Carlos Alberto Alves Souza, eles comentam que o território vivia o segundo surto da borracha (a chamada “Batalha da Borracha”), já que os seringais da Malásia, dominados pela Inglaterra, haviam sido invadidos e tomados pelos japoneses (aliados do Eixo). Sendo a borracha uma matéria-prima essencial para a produção de artefatos de guerra, como pneus, a produção amazônica voltou a ser crucial para os Aliados, com destaque para os Estados Unidos.
Segundo a revista A Voz das Selvas (1999), foi também nos primeiros anos da década de 1940 que desembarcaram os primeiros rádio-receptores no interior dos seringais do então Território do Acre. O feito decorreu do trabalho empreendido durante a gestão do governador Silvestre Coelho para a instalação de uma estação de rádio local.
Em 7 de agosto de 1944, realizou-se a primeira transmissão em caráter experimental da RDA, feita pelo próprio governador Silvestre Coelho, que enviou a seguinte saudação: “Está no ar, pela primeira vez, a título de experiência, a Rádio Difusora Acreana. Aproveito o ensejo para enviar ao povo deste Território a minha saudação, desejando que este melhoramento seja, sobremodo, proveitoso ao desenvolvimento intelectual e ao progresso desta abençoada terra” (Revista A VOZ DAS SELVAS, 1999, p. 6).
A esse respeito, o jornal O Acre estampou em sua manchete o fervoroso entusiasmo da população com a novidade: “A população de Rio Branco viveu horas de fervoroso entusiasmo, no dia 7 do corrente, quando foi lançada ao ar, pela primeira vez, a voz da Rádio Difusora Acreana” (Jornal O ACRE, 1944, p. 1).
Conforme A Voz das Selvas (1999), a inauguração oficial da primeira estação de rádio do Acre — a ZYD-9, Rádio Difusora Acreana (hoje operando em 104,5 FM, mas que antes transmitia em duas frequências AM: ZYH 200 – 1400 KHZ, ondas médias, e ZYF 201 – 4885 KHZ, ondas tropicais) — ocorreu em definitivo no dia 25 de agosto de 1944. A emissora passou a funcionar em caráter permanente, transmitindo as últimas notícias da participação brasileira na guerra e as cotações internacionais da borracha. Vale destacar que a RDA ficou temporariamente fora do ar devido a problemas técnicos, retomando as atividades em 1947.
“Na Amazônia as pessoas falam, conversam, trocam informações e recados pelo rádio […] o rádio não é veículo de transmissão de informação no sentido em que normalmente se atribui a essa mídia. Para as distantes populações ribeirinhas, com total carência de estradas e cujo meio de transporte predominante são as embarcações, o rádio é meio de uma conversação sui generis […]” (ROSTAN, 2005, pp. 13-14).

